Stuff and Nonsense


Comets On Fire: Extremos em Harmonia

 

 

 

Avatar: freio no echoplex e apreço melódico

 

 

Após adentrar o cosmos através de infinitas camadas de fuzz e echoplex, o Comets On Fire imprime novas possibilidades à sua sonoridade em Avatar, que será lançado dia 08 de agosto pela Sub Pop. Em seu quarto álbum (segundo pela Sub Pop) o amálgama de psicodelia, peso stoner e noise extremado encontra-se ainda mais bem resolvido que o disco anterior, a obra-prima Blue Cathedral (2004). No entanto, a exemplo dos discos anteriores, a audição de Avatar é uma experiência da qual não se sai incólume. A intensidade e a riqueza oferecida pela paleta rítmica do grupo californiano de Santa Cruz é a característica mais marcante da banda, que é um dos pilares da chamada “New Weird America”, cena que agrega, num mesmo rótulo, músicos e bandas que apostam em sons desafiadores e agrega disparidades conectadas pelo acid rock, como Secret Machines, Jackie-O Motherfucker e Kinski.

Entre o seu primeiro (Comets on Fire, 2000) e o segundo álbum (Field Recordings From The Sun, 2002), ficava evidente que o conjunto californiano não era somente mais um nome promissor do underground americano, pois o nível das composições entre os dois trabalhos estabelece uma progressão enorme. Em seu debut, a banda registrava o seu lado mais direto e cru, oferecendo uma enérgica mistura de punk à Stooges/MC5 e do proto-metal do Blue Cheer, tudo embebido em muralhas de efeitos obtidos por pedais fuzz e pelo echoplex (aparelho usado para reproduzir antigos ecos de fita). O resultado culminou em algumas das músicas mais matadoras do início do século – ouça “Let’s take it all in”, por exemplo, um dos blues mais ameaçadores de todos os tempos. No segundo disco, o punk sideral do grupo deu vazão a uma dinâmica mais elaborada, mas ainda sim o Comets On Fire não fez concessões aos extremos de sua música. Pelo contrário. Em Field Recordings From The Sun, as canções quase sempre ultrapassam os seis minutos, e Ethan Miller berra pra ser ouvido em meio à porradaria. Mas, em composições como “The Unicorn”, cuja barulheira é precedida por um violão dedilhado, a banda acena para uma faceta melodiosa em sua sonoridade e abre uma brecha para o ouvinte prever a estrutura que iria prevalecer em seu terceiro álbum, o magnífico Blue Cathedral.

Climático e bem menos barulhento que os álbuns anteriores, o disco é avassalador e instigante pela maneira que direciona o ouvinte frente a dois extremos: do peso cavalar (“The Bee and The Crackin’ Egg”, “The Antler of the Midnight Sun”) e de melodias delicadas e algo contemplativas (“Organs”, “Botherhood of the Harvest”), fazendo com que essas duas frentes se colidam em outros momentos (“Wild Whiskey”). Blue Cathedral comprovou que o Comets On Fire é uma das formações com mais personalidade dos EUA, consolidou o culto aos californianos no meio underground e foi escolhido por vários críticos como um dos melhores trabalhos de 2004. Entre o intervalo da turnê de Blue Cathedral e o início das gravações de Avatar, os integrantes da banda deram um tempo para retomarem as atividades de seus grupos paralelos. O guitarrista Ben Chasny gravou dois discos (School of the Flower e Sun Awakens, de 2005 e 2006, respectivamente) com o seu Six Organs Of Admittance e o líder Ethan Miller lançou o primeiro disco do Howlin Rain.

Os fãs desesperados pela continuação de Blue Cathedral não precisam esperar até agosto para ouvirem Avatar, que já se encontra à disposição nos soulseeks da vida há algumas semanas. O quarto disco do Comets On Fire se inicia com “Dogwood Rust”, que começa rápida e pesada, com riffs à MC5 e vários solos entremeando os versos. À primeira estrofe cantada, vem uma surpresa: os vocais de Ethan Miller estão mais limpos e trabalhados, sem o abuso do delay que era tão característico nos discos anteriores. “Jaybird” vem em seguida, mostrando que os rapazes são capazes de compor refrães memoráveis, daqueles que grudam à primeira audição. Os vocais dessa faixa também impressionam e fazem a diferença, com a exploração de efeitos dobrados e cantados em tom mais sóbrio, ou seja, o oposto da urradeira usual. Com um riff hipnótico de baixo e belos dedilhados de guitarra do grande Ben Chasny, logo na segunda música temos a impressão de que esse é o disco mais acessível da carreira do Comets On Fire, o que se confirma na faixa número três, a bela “Lucifer’s Memory”, conduzida melancolicamente por um piano que remete à fase áurea do Pink Floyd. Novamente, Ethan Miller canta sem efeitos, e entrega um refrão imaculado, um dos mais pungentes da história do grupo.

O show continua com “The Swallow’s Eye”, uma das mais psidodélicas do disco, com o echoplex cósmico de Noel Harmonson jogando tudo para a terceira dimensão. A canção se encerra de forma típica para o Comets On Fire: com uma jam session sobreposta por vários riffs e solos infernais duelando com o echoplex. A essa altura, a constatação é de que o grupo pode ser até aceito por fãs de Sabbath e Led, mas os momentos de extremismo ainda estão lá, intactos. Prova disso é o que vem a seguir. “Holy Teeth” é um esporro de três minutos, que poderia ter saído do primeiro álbum do conjunto e revela a faceta mais punk do Comets On Fire.

Em “Sour Smoke”, a penúltima faixa, o grupo entrega uma canção instrumental sustentada por um baixo funkeado e uma bateria tribal. No decorrer da música, Miller e Chasny vão solando e soltando riffs que se alinham aos teclados e pianos de rica timbragem. “Hatched upon the Age”, uma balada etérea, fecha o álbum, apoiada em belíssimos solos de guitarra e piano, entrevendo que uma das bandas mais destruidoras da atualidade enxergou no apuro melódico a melhor maneira de perpetuar a sua força para os trabalhos futuros.



Escrito por Roberto Sôlha às 21h06
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